admin on agosto 15th, 2009

Muito Barulho por Nada

Um homem e uma mulher. Os dois igualmente inteligentes, bem articulados, espirituosos, rápidos em construir respostas espertas a todo tipo de afirmação ou pergunta. É nas falas de Beatriz e Benedicto, dois dos personagens mais queridos do público de Shakespeare, que se fundamenta a parte cômica desta peça, Muito barulho por nada. Quando se encontram os dois, armam-se verdadeiros combates entre esses esgrimistas das palavras, dois alérgicos ao casamento, para o prazer do leitor ou platéia.

O lado trágico da peça nasce de pérfida intriga armada por um homem despeitado e vingativo, carregado de ódio, e que se descreve assim: “é mais condizente com meu sangue ser desdenhado por todos que pavimentar a estrada para roubar a afeição de alguém. Assim é que, muito embora não se possa dizer de mim que sou um homem honesto e bajulador, não se pode negar que sou um patife franco e leal”. Com provas falsamente arranjadas, uma inocente donzela é acusada de ser uma rameira. A história tem danças, festa de mascarados, cerimônia de casamento; tem flertes, tem príncipes e condes, damas nobres e damas de companhia; e a história tem calúnias, desafios para duelos, confrontações verbais, cerimônia fúnebre, até morte e fuga que se revertem. A história tem dores e amores; a história é teatro e é Shakespeare.

admin on agosto 15th, 2009

Mongólia

Tudo começa com a morte do Ocidental, que é morto em um confronto entre os seqüestradores de seu filho, que ele tinha ido pagar o resgate, e a policia, ao ver isso em um jornal o Narrador (diplomata aposentado) se lembra de que conhecia o ocidental e então se lembra também de uma vez que um brasileiro havia se perdido na Mongólia (desaparecido) e ele teve de mandar o ocidental, ao lembrar disso ele lembra de uma pasta onde o ocidental o tinha entregado e nela tinha o diário do OCIDENTAL e os diários (02) do desaparecido, daí ele começa a ler e contar a história, o ocidental que na época era o vice-cônsul do Brasil na China, atrás desse brasileiro na Mongólia, mas ele não quer ir, mas vai obrigado, o ocidental critica e fala mal da cultura tanto chinesa como mongol o livro inteiro, pois as acha inferior a dele, como foi forçado a ir o ocidental vai para a Mongólia, ao chegar lá ele vai para o hotel, a cidade onde ele fica é ULAANBAATAR, e marca de se encontrar com GANBOLD, esse que foi o primeiro guia do desaparecido na Mongólia, ele entrega ao ocidental as coisas do desaparecido, que é uma mochila de roupas e um (01) DIÁRIO com a letra muito ruim que o desaparecido escrevia, ao longo do livro o diário vai sendo lido, esse GANBOLD conta que fizera a viagem com o desaparecido e que após acabar a viagem e o dinheiro do desaparecido terem acabados, esse iria embora, ele o deixou no aeroporto, mas GANBOLD não sabia que havia dado problema no registro do desaparecido, então o ocidental pede para falar com o outro guia (Purevbaatar), esses dois estavam brigados pois um jogava a culpa no outro, ao chegar na casa do Purevbaatar o ocidental perguntou como ele conheceu o desaparecido e porque tinha o levado para os montes Altai onde o desaparecido queria tirar umas fotos, esse o levou mas o desaparecido acabou se perdendo, Purevbaatar só tinha conseguido resgatar as coisas do desaparecido e ele procurou GANBOLD para avisar o Brasil que o desaparecido tinha se perdido, mas foi mal tratado pelo PAI do Desaparecido, então ele guardou as coisas, o Ocidental estava decidido a ir atrás do desaparecido, então ele contrata Purevbaatar para guiá-lo até onde o desaparecido havia sumido, Purevbaatar aceita, mas cobra caro, então Purevbaatar entrega ao ocidental o PASSAPORTE e o SEGUNDO DIÁRIO, apartir daí o ocidental já ficou com o pé atrás com Purevbaatar, pois esse só depois do ocidental o contratar entregou o resto das coisas, o ocidental começa ler os diários e começa a perceber uma fascinação do desaparecido por uma deusa tântrica, ele descreve a deusa e conta sua história, e também descobre uma historia onde uma MONJA (sim uma mulher monge) teria salvado a vida de um DORJ KHAMBA, que era uma das pessoas mais importantes na hierarquia budista, ela o salvou da morte quando o ajudou a fugir da Mongólia na época em que essa era COMUNISTA e os comunistas teriam mandado destruir o BUDISMO MONGOL, ela o leva atrás de um caminho secreto nas montanhas ALTAI, e lá ele tem uma visão onde Narkhajid teria lhe mostrado o ponto fraco do budismo que era o ANTI-BUDA, no livro ele fala como é organizado esse tipo de budismo, fala da hipocrisia que existe nela, fala sobre os rituais que envolvem relações sexuais e etc, mas essa MONJA teria sido entregue a esse DORJ KHAMBA em um ritual (onde havia relação sexuais) ela ficou decepciona com a hipocrisia e saiu do convento e foi morar em uma montanha, quem contou essa história foi uma MONJA que depois os Ocidental foi procurá-la mas ninguém sabia quem ela era (??), a história também fala que esse KHAMBA escreveu em um papel onde estava esse ANTI-BUDA, então o Ocidental vai procurar o desaparecido junto com Purevbaatar, eles pegam um avião e vão para ALTAI, lá o motorista BAUAA os levam para o hotel, chegando lá ele descobre que sua reserva fora cancelada, então o ocidental tem que ficar hospedado em um hotel mulanbento de chineses, em ALTAI ele conhece os pais de Purevbaatar, e esses junto com um primo de Purevbaatar falam pra ele procurar os parentes da mãe de Purevbaatar, o ocidental não entende e fica achando que Purevbaatar está se aproveitando da viagem para encontrar a família, eles seguem viagem e eles param para almoçar em um lugar onde o ocidental descreve como muito bonito, esse esta engasgado com a história de Purevbaatar aproveitar-se da viagem para ver a família, ele então desabafa com Purevbaatar que fica irritado e explica que não brinca em serviço e que como a viagem foi a 6 meses seus parentes que são nômades podem se lembrar se viram o desaparecido, eles continuam a viagem e param em algumas iurtas (casas dos nômades que parece uma barraca redonda e branca, bem grandes, parecem barracas mais luxuosas, nas casas que eles passam eles são convidados, na maioria a entrar e aproveitam para pedir informações, eles também sempre comem ou bebem algo quando param nessas iurtas, a bebida normalmente é um chá com leite salgado e comem bolinhos fritos, então eles chegam a iurta dos familiares de Purevbaatar, Purevbaatar pergunta a família se viram Shagdarsouren, que era um nômade que sem querer o desaparecido havia encontrado, eles vão atrás desse Shagdarsouren, quando o encontram o ocidental vê uma foto do desaparecido e perguntam a ele se sabe onde ele está, ele responde que o rapaz sumiu no caminho de volta, e que estava atrás de uma paisagem, Purevbaatar pergunta sobre um monge que Shagdarsouren tinha falado sobre ele na ultima vez que se viram, esse monge fala que tem o “caderno onde o KHAMBA teria escrito onde estava o ANTI-BUDA, só que ele teria sofrido um acidente e teria entregue a um CAZAQUE, o ocidental e Purevbaatar vão atrás do monge para saber onde está o manuscrito (caderno), o ocidental está com a pulga atrás da orelha com Purevbaatar, eles vão atrás do monge e esse vive mudando de cidade e construindo templos, que nem sempre acabam e nem funcionam, eles descobrem que o monge se mudou e eles foram atrás dele, mas como era muito longe acabaram indo dormir as margens de um Lago, de noite Bauaa falou que iria consertar o jipe, mas na verdade iria comer, mais a noite apareceu um bando de jovens arruaceiros e dizem que estão procurando outro carro, eles decidem então ir nadar no rio, cujas águas estavam muito geladas, Purevbaatar diz que conhece um deles que é ex-lutados, eles ficam fazendo algazarra só para deixar eles irritados, ai eles saíram da água, ligaram o rádio e começaram a beber, o ocidental fica irritado, mas Purevbaatar fala para ele se acalmar, à meia-noite os arruaceiros entram no carro e vão embora, e vão para outra margem onde ficam correndo de carro, de manhã eles vão para um vilarejo onde mora um primo do monge, e onde eles acreditam estar o monge, ao chegar no vilarejo eles vão para o centro de cultura em busca de alguém que conhecesse o primo do monge que era cantor, ao chegar lá descobriu que o lugar havia virado um centro de jogatina uma espécie de cassino, onde os homens faziam apostas e jogavam bilhar, eles então foram falar com o secretário de cultura, o secretario fez questão de levá-los a caso do primo do monge, eles perceberam que o secretário ficou com o pé atrás pensando que eles iram denunciar o “cassino”, quando eles chegaram na casa do primo do monge, o monge não estava então eles o esperaram, na casa do primo do monge havia um japonês que fazia aulas com o primo do monge, esse falou que não conhecia nenhum monge, oquê fez o ocidental ficar com a pulga atrás da orelha com essa história, quando o monge chegou, o ocidental viu Purevbaatar falar com esse monge, o monge disse que lembrava de um brasileiro que passou com Purevbaatar a meses e que não sabia onde ele estava, e também disse que ele tinha entregue o manuscrito a um falcoeiro cazaque, Purevbaatar perguntou de era um homem chamado Baitolda, Purevbaatar falou que a única chance de saberem onde o desaparecido estava era ir atrás desse falcoeiro pois certamente o desaparecido que estava intrigado com aquela história de manuscrito teria ido até ele, meses antes Purevbaatar tinha falado com Baitolda e esse teria afirmado a história do monge, então eles foram atrás de Baitolda, eles foram embora logo pois não queriam reencontrar o secretário de cultura, eles pararam em uma cidadezinha para dormir, logo de manhã seguiram viajam mas chuvia muito, então tiveram que parar na primeira iurta que viram, dentro dela estava uma família onde todos estavam envolta do fogareiro, nessa hora o ocidental começa a perceber como ele jugava mal as pessoas, pois os nômades eram muito hospitaleiros e também percebeu o valor das outras culturas, Purevbaatar pergunta por Baitolda, eles falam que tem alguns cazaques falcoeiros perto da geleira, eles partem então, até que param em outra iurta, onde só há mulheres e crianças, e então o ocidental fica pensando se essa família é uma das quais Purevbaatar falou que são formadas apenas por mulheres que foram estupradas e então tem que construir uma família sozinhas, eles segue para outra iurta onde esta um casal de cazaques e eles falam que Baitolda está perto, então partem em busca desse, eles param no dia seguinte em uma IURTA CAZAQUE e perguntam de Baitolda e os cazaques respondem que eles esta logo a frente e que podem levá-los por dinheiro (sempre pedem dinheiro), quando encontram mais a frente o filho de Baitolda que os leva ao pai e também pede dinheiro e dessa vez eles pagam, ao chegar na iurta de Baitolda, ele começa a falar sobre como é ser um falcoeiro e de sua ave, nessa hora o filho de Baitolda pergunta a Purevbaatar se eles vão pagar e esse diz que não, então quando o ocidental pergunta de manuscrito, Baitolda fala que não sabe de nada, depois Purevbaatar conta ao ocidental que o filho de Baitolda pediu dinheiro e então entendem que aquela história é papo para impressionar turista, eles perguntam a Baitolda se lembra do desaparecido e ele diz que não lembra de nada, mas meses atrás o desaparecido e Purevbaatar tinham passado por lá, como até esse momento Purevbaatar não tinha falado ao ocidental que o filho de Baitolda tinha pedido dinheiro, Baitolda “joga” o ocidental contra o guia, fazendo o ocidental pensar que quem mentiu foi o guia, então eles brigaram e não se falaram até o final da tarde, eles acamparam perto de um lago, logo de manhã passou um homem com jeito meio estranho, parecendo um frankstein, ele esta com seu filho e estava a cavalo, ele se chamava Kuidabergen, o ocidental fala que ele parecia um ogro, depois das perguntas costumeiras o ogro convida eles a pousarem em sua casa, mas eles não aceitam, então ele pede que ele por favor encham uma vasilha de água e levem para ele no dia seguinte, o ocidental aceita e o ogro explica onde fica sua casa, Purevbaatar fala que não confia nos cazaques (o ogro era cazaque) e conta que quando ele e o desaparecido passaram a meses atrás na casa de Baitolda ele disse que na verdade quem salvou o KHAMBA (aquela história da monja) na verdade fui um monge que tinha tida relações sexuais em uma cerimônia com o KHAMBA e o monge mostrou ao KHAMBA uma tatuagem em seu pênis em forma da deusa Narkhajid, e que não foi que o KHAMBA tinha visto a deusa e sim que tinha ficado chocado com a tatuagem, Baitolda falou isso só para insinuar que os MONGOIS eram GAYS, por isso Purevbaatar não gostava de Baitolda,na manhã seguinte levaram a água para o ogro, ele morava em uma casa velha com a mulher e os filhos, quando o ocidental chegou com a vasilha de água ele mandou o filho ajudar, o ocidental achou que o ogro era preguiçoso, mas na verdade o ogro não tinha o braço direito, então o ocidental e o guia entraram para tomar um chá, e queriam ir embora, mas o ogro falou para eles esperarem um pouco, de repente entra uma homem parecendo mendigo, ele era o DESAPARECIDO, o ocidental fica feliz, eles voltam para o Brasil.
Ai o narrador volta ao inicio da história e fala que já se passaram sete dias da morte do ocidental, e então ele vai a missa de sétimo dia, ao chegar lá vê um homem ao lado da mulher do ocidental, ai pergunta para um amigo quem é, o amigo responde que é o meio irmão dele, fala que é um irmão que ele encontrou na Mongólia, o narrador descobre então que o desaparecido e meio irmão do ocidental, descobre que o ocidental era filho de uma mulher solteira e que o não nunca o aceitará como filho, ai um dia ele foi atrás do pai e o pai o expulsou do seu escritório, ao sair ele viu o meio irmão dele que tinha na época cinco anos, ele era o desaparecido, e por isso o ocidental não queria ir à Mongólia, ai no final o narrador fala que ele se sente responsável pela reunião dos irmãos, pois ele forçou o ocidental a ir à viagem.

admin on agosto 15th, 2009

Missa do Galo

O narrador do conto Missa do Galo, de Machado de Assis, é Nogueira, um rapaz de dezessete anos de idade que veio ao Rio de Janeiro para o que chama de estudos preparatórios. É de Mangaratiba e está hospedado na casa do escrivão Menezes, viúvo de uma de suas primas e casado em segundas núpcias com Conceição, uma “santa”, que se resigna com uma relação extraconjugal do marido. Este dorme fora de casa uma vez por semana dizendo que vai ao teatro. Vivem na casa, ainda, D. Inácia, mãe de Conceição , e duas escravas. A história se passa na véspera do Natal, uma daquelas noites em que o escrivão se ausenta de casa. Nogueira iria com um vizinho à missa do galo e combinou acordá-lo à meia-noite. Decide esperar já pronto, na sala da frente, de maneira a sair sem acordar as pessoas d! a casa. Está lendo um romance, Os três mosqueteiros, quando ouve um rumor e passos. É Conceição. Começam a conversar, falam de assuntos variados, o tempo vai passando; a conversa prolonga-se, emendam os assuntos, riem, aproximam-se e falam baixo para não acordarem D. Inácia. Finalmente, invertendo a combinação, o vizinho grita na rua que é hora da missa do galo. Nogueira sai. No dia seguinte, Conceição está como sempre foi, sem que nada possa lembrar a Nogueira a conversa da noite. No Ano Novo, ele vai para Mangaratiba. Ao retornar, em março, para o Rio de Janeiro, o escrivão havia morrido. Nunca mais encontrou Conceição, sabendo depois que ela havia se casado com o escrevente do marido. O conto se inicia de forma significativa : “Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta.” O ponto de vista é de Nogueira, esse adolescente que está descobrindo o mundo , se deparando com situações desconhecidas , com o mundo da Corte,! com o mundo dos adultos e que vai ter um encontro surpreendente e enigmático com uma mulher, Conceição. Para ele que veio da roça, é a descoberta desse mundo novo que surge como significação para o título Missa do Galo. A referência religiosa é enganosa, sendo outro o interesse de Nogueira pela missa. Diz ele : “eu já devia estar em Mangaratiba, em férias, mas fiquei até o Natal para ver a missa do galo na Corte” (p. 606). E adiante : “aqui [no Rio de Janeiro]há de haver mais luxo e mais gente também”(p. 608). As falsas pistas criam o caráter enigmático da escrita machadiana. Esse caráter vai se apresentar também para o próprio personagem de Nogueira que, ao longo do texto, vai se deparar com diversas situações que se mostram desconhecidas para ele em sua descoberta do mundo e que ele deverá decifrar. É o que ocorre com relação ao escrivão quando este diz certa noite que irá ao teatro. Estimulado pela curiosidade, o estudante lhe pede para levá-lo com ele. O silêncio de Menezes, ! os risos das escravas e a careta de D. Inácia fazem-lhe compreender que há algo de estranho , um código novo que precisa decifrar. O código social com sua distribuição de poderes e papéis vai se evidenciando para o estudante de várias maneiras. Significativa é a distribuição das chaves da casa : “Tinha três chaves a porta; uma estava com o escrivão , eu levaria a outra, a terceira ficava em casa.”(idem) A chave de uma casa é o símbolo do poder de dominar a passagem entre a casa e a rua . No conto , a primeira chave pertence ao escrivão , o dono da casa , aquele que possui o domínio da rua. Ao elaborar uma sociologia da nossa identidade , Da Matta utiliza a oposição entre a rua e a casa como um instrumento de análise do mundo social brasileiro. Mostra-nos que “a rua indica basicamente a ação”, é o lugar dos imprevistos, dos acidentes e das paixões” (p. 70) sendo também, mais especificamente neste caso, o lugar do “teatro”, da traição. A segunda chave está provisoriamente com Nogueira! . Com sua função intermediária, o estudante efetua o contato entre dois mundos, da roça e da Corte, da infância e da adultidade, da rua e da casa. “A terceira [chave] ficava na porta”, relata o narrador. Não pertence a ninguém, simplesmente é da casa. Como uma chave imóvel, permanentemente na porta, ela é aberta para deixar alguém entrar, não para sair. Delimita, assim, uma área de trânsito possível para a mulher, definindo-se dessa maneira seu lugar e função, no caso, a permanência na casa, os cuidados do lar. Embora a condição feminina tenha em grande parte se modificado na atualidade, ainda é muito comum mulheres contemporâneas com a função tácita de cuidar da porta da casa. Os filhos e/ou o marido podem sair sem a chave porque contam com o fato de que a mulher está em casa para que possam entrar. A casa é o lugar do silêncio , do controle, como aponta Da Matta, e também o lugar da passividade e da obediência(p.71). A situação de reclusão determina que o mundo fora de casa seja pa! ra a mulher burguesa um mundo pouco conhecido, ao qual ela tem pouco acesso. Um dos acessos possíveis é através da fantasia . É o que se observa num fragmento de diálogo entre Nogueira e Conceição . Ele diz : “- … [então] a senhora nunca foi à casa de barbeiro… Mas imagino que os fregueses, enquanto esperam, falam de moças e namoros” (p.610), responde Conceição. Uma outra forma de contato com o mundo exterior é a literatura : “- Que é que estava lendo? Não diga, já sei, é o romance dos Mosqueteiros. Justamente : é muito bonito. Gosta de romances? Gosto. Já leu a Moreninha? Do Dr. Macedo? Tenho lá em Mangaratiba. Eu gosto muito de romances, mas leio pouco, por falta de tempo. Que romances é que você tem lido?”(p.608) Dentro da casa , há o quarto, onde o silêncio se transforma em insônia. O sofrimento pela relação extraconjugal do marido foi seguido pela resignação : “Menezes trazia amores com uma senhora, separada do marido, e dormia fora de casa uma vez por semana. Conceição padecera, a principio, com a existência da comborça; mas, afinal, resignara-se.”(idem) . Sofrimento, silêncio, resignação , insônia. O episódio a que o narrador se refere no início do conto se passa em outro lugar – a sala de visita, um local intermediário entre a casa e a rua. Da Matta mostra como determinadas peças da casa , tais como a sala de visitas , a varanda e as janelas, são espaços ambíguos , situados entre o mundo interior e exterior, permitindo uma comunicação entre aqueles que estão dentro e os que estão fora (p.71). Barthes , ao estudar o teatro raciniano, mostra que os espaços ambíguos são lugares da espera e a ação que neles se passa tem uma temporalidade peculiar. Nesse teatro onde se desenrolam situações trágicas envolvendo grandes lutas de poder e intensas histórias de paixão, as peças intermediárias – especificamente o vestíbulo – estão a meio caminho entre o mundo exterior, lugar da ação, e o quarto, espaço do silêncio, sendo ele o lugar da linguagem, l! inguagem que marca o limite trágico do herói clássico(p.10) . Por não ser o senhor de seus atos , é ela que lhe resta, uma linguagem que o conduz a uma espera. Embora numa ambiência de menor passionalidade, no conto Missa do Galo, também ocorre uma situação de espera instaurando uma temporalidade diferente na qual o pragmatismo fica em segundo plano. É claro que aqui a espera não é, como no teatro de Racine, a expectativa trágica diante dos jogos de poder e da impotência humana mas, sim, uma espera que permite fugir, por um intervalo de tempo, das convenções sociais, que possibilita deixar a vida cotidiana de lado e parar de agir. As ações no início são pontuais : “A família recolheu-se à hora de costume; eu meti-me na sala da frente, vestido e pronto.” E um pouco adiante : “Sentei-me à mesa que havia no centro da sala, e à luz de um candeeiro de querosene (…)trepei-me ainda uma vez ao cavalo magro de D’Artagnan e fui-me às aventuras” (p.606). Mas vai ocorrendo uma transformação e! elas ganham duração. O tempo verbal predominante passa do pretérito perfeito para o imperfeito : “Dentro em pouco estava completamente ébrio de Dumas” (idem). É importante observar que essa mudança é deflagrada pela leitura que Nogueira faz de Os Três Mosqueteiros , sendo, portanto, a literatura o catalisador dessa transformação que também atua sobre a percepção temporal. Nogueira torna-se incapaz de distinguir a passagem do tempo : “Os minutos voavam, ao contrário do que costumam fazer, quando são de espera; ouvi bater onze horas, mas quase sem dar por elas, um acaso” (idem). Nesse momento se dá a aparição de Conceição. Nogueira ouve seus passos e a vê, fecha o livro e se inicia a conversa entre eles. Persiste o efeito de duração das ações : “Comecei a dizer-lhe os nomes de alguns [romances]. Conceição ouvia-me com a cabeça reclinada no espaldar” (p.608). Há certamente um ritmo, mas um ritmo lentificado , que faz esquecer a preocupação com a hora e com os compromissos. “A conve! rsa reatou-se assim lentamente, longamente, sem que eu desse pela hora nem pela missa”. São profusas as expressões adverbiais de tempo que além de denotarem a duração possuem um caráter de imprecisão : “Parava algumas vezes examinando”(idem); “Pouco a pouco, tinha-se inclinado”(idem); “De quando em quando reprimia-me”(p.609). A conversa, portanto, a linguagem, toma a cena principal ocorrendo uma espécie de paralisia que impede as ações : “a idéia (..) da missa , lembrou-me que podia ser tarde e quis dizê-lo . Penso que cheguei a abrir a boca, mas logo a fechei” (p.610). O discurso dos personagens abandona o encadeamento lógico característico dos processos secundários aproximando-se da associação livre própria ao tratamento psicanalítico :”continuei a dizer o que pensava das festas da roça e da cidade e de outras cousas que me iam vindo à boca. Falava emendando os assuntos, sem saber por que, variando deles ou tornando aos primeiros” (p.609) . Toda a cena se passa numa atmosfera! especial , proporcionada por uma situação de exceção: uma hora intermediária , um lugar intermediário, um personagem intermediário . Torna-se possível o alívio das convenções sociais, torna-se possível a irrupção do recalcado. E ocorre então a transformação de Conceição. Inicialmente esta era definida como “a santa”, e aí novamente o religioso encobre um outro significado, no caso, o caráter de resignação : “fazia jus ao título, tão facilmente suportava os esquecimentos do marido” (p. 606). Acompanhamos uma transformação progressiva. De uma sombra, de um vulto :”Um rumor que ouvi dentro veio acordar-me. Eram uns passos no corredor que ia da sala de visitas à de jantar; levantei a cabeça; logo depois vi assomar o vulto de Conceição.”(p.606; os grifos são meus) passa a ser um corpo e alguém que é capaz de fazer gestos : “Em seguida, vi-a endireitar a cabeça, cruzar os dedos, e sobre eles pousar o queixo, tendo os cotovelos nos braços da cadeira, tudo sem desviar os grandes olhos despe! rtos” (p.608). Conceição passa de alguém com “um temperamento moderado, sem extremos, sem grandes lágrimas, nem grandes risos”(p.606), para alguém capaz de rir, sonhar, de falar de suas reminiscências, adquirindo um passado, uma vida: “Tal foi o calor de minha palavra que a fez sorrir” (p. 608) “Riu-se da coincidência”(p.609) “Conceição parecia estar devaneando”(p. 611). “Em seguida, referia umas anedotas de baile, uns casos de passeio, remiscências de Paquetá” (p.610). Passa da passividade : “Tudo nela era atenuado e passivo”(p. 606), para a atividade : num dos momentos em que o estudante faz menção de se levantar ela o impede retendo-o : “- D. conceição, creio que vão sendo horas, e eu … Não, não, ainda e’ cedo. Vi agora mesmo o relógio, são onze e meia. Tem tempo.”(p. 608) Ela ganha sensualidade e todo o seu corpo se faz presente : “Conceição ouvia-me com a cabeça reclinada, enfiando os olhos por entre as pálpebras meio cerradas, sem os tirar de mim”(idem). “De vez em quando! , passava a língua pelos beiços, para umedecê-los”(idem) Conceição se apresenta, assim, como uma mulher, uma mulher sensual , uma mulher que se revela, ou melhor, que se desvela em contraposição ao velamento, que aparece – no sentido de aparição dentre o vulto. Essa aparição se dá no mesmo compasso do encontro que se realiza entre ela e Nogueira. A aproximação se faz fisicamente e é progressiva. Inicialmente :”ela foi sentar-se na cadeira que ficava defronte de mim, perto do canapé”(p.607). Depois : “E não saía daquela posição que me enchia de gosto, tão perto ficavam as nossas caras”(p.609). Um pouco adiante :”Deu a volta à mesa e veio sentar-se do meu lado” (idem). Em seguida foi a vez de Nogueira aproximar-se : “Fui sentar-me na cadeira que ficava ao lado do canapé”(idem) E finalmente : “pôs a mão em meu ombro, e obrigou-me a estar sentado. Cuidei que ia dizer alguma coisa; mas estremeceu, como se tivesse um arrepio de frio, voltou as costas”(p.610). A sensualidade de Conceição se! revela na medida em que ela é percebida e reconhecida por Nogueira , isto é, ela resulta desse encontro : “não estando abotoadas, as mangas, caíram naturalmente e eu vi-lhe metade dos braços, muito claros , e menos magros do que se poderiam supor. A vista não era nova para mim, posto também não fosse comum; naquele momento, porém, a impressão que tive foi grande”(p.608-9). Nogueira, portanto, a vê com outros olhos, o que alimenta a revelação de Conceição. A beleza de Conceição aparece : “em certa ocasião, ela, que era apenas simpática, ficou linda, ficou lindíssima”(p.610). Há em Nogueira um encantamento em relação a Conceição , tomando ela consciência de sua sensualidade, do que é capaz de provocar no outro, parecendo saborear essa percepção . “Uma dessas vezes creio que deu por mim embebido na sua pessoa, e lembra-me que tornou a fechar [os olhos], não sei se apressada ou vagarosamente”(p.609). Confinada aos limites da casa e às regras de comportamento próprias a uma senhora, Co! nceição adota a resignação, a conduta austera, a abolição da sensualidade. O contato com o estudante, forasteiro, em uma situação intermediária criou um mundo especial onde o racional foi posto em suspensão, de maneira a permitir a emergência do erótico. Como véus que vão sendo levantados fazendo surgir a sensualidade, a beleza, a fruição do desejo. Essa aparição só se torna possível pela presença de Nogueira. É ele que a vê, que a descobre, que, através do seu olhar, alimenta esse jogo de sedução e revelação. É seu olhar embevecido com tudo o que Conceição lhe traz de novo, de diferente, que permite a ela reconhecer-se mulher e saborear esse reconhecimento. Uma vez despertado da letargia provocada por aquele encontro, Nogueira foi para a igreja assistir à missa do galo. Mas lá “a figura de Conceição interpôs-se mais de uma vez” entre ele e o padre. E , no conto, acrescenta : “fique isso à conta dos meus dezessete anos” (p.611). Talvez seja próprio aos dezessete anos ter curiosidad! e, pouca arrogância, atributos necessários à abertura para a alteridade. Só na medida em que se reconhece em condição de falta, sua condição de incompletude, o sujeito pode movimentar-se em direção ao outro, em direção à riqueza da alteridade e estabelecer um jogo de sedução, aproximação, descoberta e encontro . Isto não é exclusivo nem obrigatório à adolescência, mas a crise peculiar a esse período , assim como outras crises vitais, provoca uma ruptura dos mecanismos habituais de velamento da angústia, colocando o sujeito numa instabilidade que o torna mais permeável à consciência da falta. Em Feminidade, Freud afirma que a constatação da castração feminina leva a mulher a três destinos possíveis : à neurose ou inibição sexual, à masculinidade ou ao que considera a feminidade normal, que consistiria na maternidade (p.155). Ao analisar a personagem de Carmem, principalmente das versões da década de 80 , Birman vê nesta um novo destino para a mulher diante da castração, qual seja a histericização, onde há uma “restauração do ser da mulher no registro do desejo” (p.93). Embora o termo não esteja presente no texto freudiano, Joel Birman o considera como conceito subjacente. Contrapõe-se ao que ocorre na histeria pois, enquanto nesta o desejo está esterilizado e congelado , na histericização há uma dignificação do erotismo que possibilita sua fruição (p. 95-96). É o que ocorre com Conceição , embora apenas por um período de tempo, um intervalo em sua vida. O final do conto abre para inúmeras possibilidades conduzindo para mais um enigma do texto. O que nos remete para o começo do conto , o enigma com que o narrador inicia o relato, um dos poucos enigmas apresentados no conto que não é elucidado. E que persiste , para o narrador, por muitos anos. A que se refere esse enigma? À Conceição ? Ao enigma da feminidade? Joel Birman afirma que a idéia de um enigma da feminidade tem como pressuposto a idéia de que a masculinidade seria algo translúcido e não enigm! ático, o que está longe de ser verdadeiro. Assim como existe um enigma feminino , existe um masculino e seria mais pertinente falar do enigma da diferença sexual (p.77). De fato, o próprio narrador parece considerar esse duplo aspecto pois, ao expor sua questão, ele absolutamente não se exclui. Pelo contrário, as duas expressões verbais da frase “nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora” têm como sujeito o pronome eu, oculto. Ele fala, portanto, de uma perplexidade diante desse fato inesperado, surpreendente, não planejado, no qual foi envolvido, conquistado, até se tornar participante desse encontro provisório entre um rapaz e uma mulher. O conto Missa do Galo , configura, em seu caráter enigmático, o que Umberto Eco denominou uma obra aberta. Segundo ele, “a obra de arte é uma mensagem fundamentalmente ambígua, uma pluralidade de significados que convivem num só significante” (p. 22). Embora esse caráter seja próprio a toda obra de arte, “a ambiguidade se torna -! nas poéticas contemporâneas – uma das figuras explícitas da obra”(idem). Os enigmas e as falsas pistas que vão sendo apresentados e parcialmente desvelados implicam uma participação do leitor na construção que se torna a leitura do texto. Estabelece-se um jogo fundado novamente na alteridade. A leitura torna-se um processo potencialmente infinito , provisoriamente enriquecido por seus diversos leitores-autores caracterizando uma “corrente narrativa” (Felman). Isto fica bastante claro na experiência lúdico-literária realizada por um grupo de autores brasileiros do século XX ao reescreverem o conto de Machado de Assis tomando , cada um deles, o ponto de vista de um dos personagens , recriando o texto e revelando novas e talvez insuspeitadas facetas.