Memorial do Convento

D. João V, rei de Portugal, e sua esposa D. Maria Ana Josefa empenham-se para dar herdeiros a coroa portuguesa, porém a rainha não consegue engravidar. Certa vez, um bispo inquisidor e um franciscano velho foram dar um recado divino ao rei: “se vossa majestade prometesse levantar um convento [franciscano] na vila de Mafra, Deus lhe daria a sucessão”. Confiando em tais palavras, D. João promete assim fazê-lo se a rainha o der um filho no prazo de um ano. Passa-se alguns meses ela engravida. Outra história caminha com a anterior, a de Baltasar Mateus, o Sete-Sois, que foi soldado no Alentejo, dispensado ao perder a mão esquerda. Ficou alguns anos a vagabundear e pedir esmolas, principalmente para comprar os ferros que lhe haveriam de fazer vezes a mão, tratava-se de um gancho e um espigão, arma facilmente mortal. Sete-Sois estava a caminho de Lisboa, contava com a caridade das pessoas que tinham dó de quem vem da batalha aleijado para sempre. Porém, Baltasar deixa claro que tem saudades da guerra e se o quisessem voltaria, provavelmente porque lá ele encontra um objetivo, já que afirma sentir-se perdido. Em um auto-de-fé de Lisboa, Baltasar conhece o Padre Bartolomeu Gusmão e Blimunda, cuja mãe está sendo queimada por ter visões consideradas fingimento. Ao terminar o auto, foram para a casa da moça onde comeram. Blimunda esperou a colher de Baltasar e encerando a refeição o padre deitou a benção, sendo isto, oculto e mentalmente uma espécie de cerimônia de casamento. Bartolomeu foi embora, os dois ficaram uma hora a se olhar sentados, sem falar, então Baltasar perguntou: “Por que foi que perguntaste meu nome?”, Blimunda responde: “Porque minha mãe o quis saber e queria que eu soubesse” e pede a Baltasar para ficar, alegando que era preciso. Baltasar diz que ela o deitou um encanto e que o olhou por dentro, a moça nega e promete que nunca fará isto. Assim, passaram a morar juntos e agora Baltasar lembra-se menos da guerra, já que só tem olhos para os olhos de Blimunda. Sete-Sois encontra Bartolomeu Lourenço para saber da apuração sobre pensão de guerra. A conversa continua, mas agora com relação ao apelido de voador do padre. O autor descreve comparativamente os dois e enfatiza a grande inteligência de Bartolomeu e seus estudos. O apelido é explicado ao afirmar que construiu balões e que voando os balões é como se ele mesmo tivesse voado. Baltasar não acreditou, então o padre convidou-o para ver a máquina que estava a montar. Lá chegando, olharam o projeto e os materiais de construção e o padre alegou que quando todas as coisas estiverem armadas e concordantes entre si a máquina poderia voar, porém falta quem o ajude com o trabalho manual, então pede a Baltasar que de imediato recusa achando-se incapacitado, mas é convencido ao explica-lo que Deus também é maneta da mão esquerda e fez o universo, logo, Baltasar poderia atar o arame que fará a máquina voar. Por empenho de Bartolomeu, Baltasar arrumou emprego no açougue do Terreno do Paço, transportar, puxar e arrastar peças de carne. Neste meio tempo, nasce o bebê real é uma menina, fato que D. João terá que se contentar. Então, sendo rei de palavra: haverá convento. Blimunda revela a Sete-Sois que pode olhar por dentro das pessoas, dos objetos, até mesmo por dentro da terra, isto quando está em jejum e quando lua não muda de quarto. Relembra sua promessa, da primeira noite que dormiram juntos, que nunca o olharia por dentro. Sete-Sois não acredita em tais poderes, então saíram na manhã seguinte para comprovar, “faze com teu espigão um buraco naquele lugar e encontrarás uma moeda de prata” e assim foi, Baltasar não mais duvidou. Blimunda demonstra não temer o Santo Oficio, pois seus olhos são naturais, só podendo ver o que há no mundo e não o que há no céu e inferno. Sem nenhuma premissa, nasce o infante D. Pedro. O rei vai a Mafra escolher onde será levantado o convento. Aceitando o convite do padre, o casal vai à abegoaria vazia do duque de Aveiro em S. Sebastião da Pedreira para construir a máquina de voar, apelidada de passarola. Lá cada um faz o trabalho mais adequado. Em um desses dias, Bartolomeu dá a Blimunda a alcunha de Sete-Luas: “Tu és Sete-Sois porque vês às claras, tu serás Sete-Luas porque vês às escuras”. As tantas, o padre revela que a máquina precisa de éter para voar, combustível este que segura as estrelas no céu. Então, ele parte para a Holanda, que é terra de muitos sábios e lá aprenderá a arte de fazer descer o éter do espaço. “Para que a máquina se levante ao ar, é preciso que o sol atraia [as esferas que contém] o âmbar que há-de estar preso nos arames do tecto, o qual, por sua vez, atrairá os ímanes que estarão por baixo, os quais, por sua vez, atrairão as lamelas de ferro de que se compõem o cavernante da barca”. Com o tempo, o padre e o casal construíram também laços de amizade. Ao viajar Bartolomeu, Sete-Sois e Sete-Luas vão para Mafra, vila natal do ex-soldado, lugar no qual ele não havia retornado depois da guerra, logo, seus familiares não tinham notícias suas. Lá chegando, o reencontro foi caloroso, mãe, pai, irmã e o cunhado Álvaro Diogo, que receberam muito bem Blimunda, já que não era cristã-nova, assim, o casal passou a morar nesta casa. O pai, João Francisco, logo diz que vendeu a terra que tinham na Vela, por vontade do rei, que vai construir ali um convento e o cunhado que é pedreiro afirma que será obra grande. Nesses primeiros dias Baltasar ajuda seu pai com trabalho do campo. Morre o infante D. Pedro com cerca de dois anos. Logo nascerá outro infante, já que a rainha, devota parideira, veio ao mundo só para isso. D. Francisco sonda o trono, devido a uma doença do irmão, inclusive trama casamento com a rainha, mas o rei se recupera acabando com tais planos. O padre, depois de três anos retorna, vai a Mafra falar com seus dois amigos e os revela que o éter não pode ser alcançado pelas artes da alquimia, porém vive dentro dos homens e das mulheres, se compõe das vontades dos vivos. É determinado que Blimunda com sua visão diferenciada, será responsável por ver as vontades dentro das pessoas e as capturará em um frasco que contém um âmbar amarelo que atrai o éter. O padre vai a Coimbra, enquanto isto Baltasar constrói a máquina e Blimunda recolhe as vontades, que se parecem com nuvens fechadas. O rei desloca-se a Mafra para inaugurar a obra do convento, na cerimônia coloca suas mãos sobre a primeira pedra, o povo tenta assistir, mas o lugar é pequeno e eles estão sujos demais para entrar, então resta escutar os ecos. Sete-Sois e Sete-Luas vão a S. Sebastião da Pedreira para continuar os trabalhos na maquina, projeto este que faz com que seus participantes tenham um sonho, sintam-se únicos. O rei sabe da construção, deu fundos para tal e não tem cobrado resultados. O padre retorna algumas vezes de Coimbra para averiguar a obra e perguntar das vontades. Blimunda está avisada que serão necessárias duas mil para poder subir aos ares e que a obra tem de permanecer em segredo. Num desses regressos, o padre volta doutor em cânones. Na corte Bartolomeu conhece o músico italiano Domenico Scarlatti, após muita conversa, o padre convida-o para ver a passarola, ele aceita, agora são quatro que compartilham o segredo e Scarlatti acrescenta “sou o irmão de todos, se me aceitarem”. Trouxe seu cravo e assim viria diversas vezes tocar para Baltazar, Blimunda e passarola. Diz que gostaria de voar na máquina também. Blimunda continua a coletar as vontades, até arriscando-se numa epidemia em Lisboa para pegar as dos moribundos. Coletadas todas as vontades e a maquina pronta, depois de testada pode ser mostrada ao rei que, segundo o padre, dará aos seus construtores riquezas e proveitos, alcançarão a gloria. Contudo, Bartolomeu está irrequieto por medo da Inquisição, não que seja pecado voar, mas considerarão arte demoníaca o fato de haver vontades humanas dentro das esferas, “para o Santo Oficio não há vontades, há só almas”, mesmo com o rei do lado deles, a majestade pode achar o caso duvidoso e dar razão ao Santo Oficio. Passados alguns meses, o padre entra violentamente na abegoaria afirmando que o Santo Oficio está a sua procura, que todos devem fugir e o melhor meio seria a passarola. Com pressa tiraram as telhas do teto, ajeitaram os últimos detalhes e finalmente o sol bateu nas bolas de âmbar, a máquina estremeceu, oscilou e subiu, alcançando altura considerável, de cima podia-se ver Lisboa toda, seus tripulantes transbordaram de alegria. Agora, precisam aprender a manipular o invento. Bartolomeu esclarece que o destino é as terras onde não possa chegar o Santo Oficio. Entretanto, “quando o sol se puser, descerá irremediavelmente a maquina”. Ao passarem por Mafra, Baltasar reconhece sua vila e lá muitas pessoas conseguiram identificar algo no céu, algumas fogem com medo, outras acham obra do divino. O sol está se pondo e a máquina pousa em um lugar não conhecido pelos três. O padre está amedrontado, insiste que correrem grande perigo e que irão achá-los. O casal, mais calmo, prefere esperar até o dia seguinte e fugir com a maquina para o lugar onde a Inquisição não alcance. Bartolomeu inquieto começa a dar sinais de loucura, no meio na noite coloca fogo na passarola, alegando “se tenho de arder numa fogueira, fosse ao menos nesta”, os outros dois empenham-se em apagar enquanto o primeiro desaparece na escuridão. Pela manhã, Baltasar cobre a máquina com um amontoado de vegetais para escondê-la. O casal decide que não há mais nada a fazer ali e vão embora para Mafra, dois dias de viagem, no caminho de volta um pastor os informou que o lugar onde estavam era o Monte Junto. Quando chegaram ao seu destino, ocorria lá uma procissão pela passagem do espírito santo, na verdade a passarola. O casal torna a morar na residência dos Sete-Sois. Baltasar com ajuda do cunhado consegue um emprego na construção do convento, que não anda adiantada. Trabalhará com os carros de mão. Depois de dois meses Baltasar vai ver a passarola para recobrir-la melhor e isso fará diversas vezes com o tempo, também consertará o que está quebrado, remediará quanto puder trocando as peças necessárias. Blimunda o acompanha uma vez para saber o caminho caso precise. “Se não fosse a Constancia de Baltasar, encontraríamos aqui uma triste ruína, os ossos de um pássaro morto”. Espantoso é as esferas com as vontades que sempre se parecem novas. Sete-Sois acredita que se soltassem as vontades seria como se os três construtores da máquina não tivessem nascido, portanto ele crê que nasceu para isto. Scarlatti veio a Mafra ver se os colegas estão vivos e avisá-los que o padre Bartolomeu morreu em Toledo, para onde tinha fugido e disseram que louco. Aconselhou-os cuidar bem do invento. Cansado e achando-se merecedor, Baltasar passou a andar com uma junta de bois das muitas que o rei tinha comprado. O autor mostra e enfatiza o grande sacrifício dos trabalhadores da construção, usando técnicas rudimentares, carregando rochas enormes com mais de duas mil arrobas, pessoas morrendo em cretinos acidentes de trabalho, pois afinal não havia proteção, inclusive Álvaro Diogo que cai de uma parede do convento. A justificativa deste sacrifício é dada por um frade que prega aos trabalhadores dizendo que todo esforço deve ser tomado como penitência e o que fizeram é obra santa como foi a dos antigos cruzados. D. João, megalomaníaco e desajuizado, quer ter uma basílica igual à de São Pedro de Roma em sua corte, para ser lembrado todo o sempre, mas logo o arquiteto consegue convencê-lo do contrário argumentando que o rei não estará vivo quando a obra estiver concluída, já que é muitíssimo demorada considerando suas proporções. Trata-se de um pedido sem cabimento e desmedido. Contrariado inicialmente, o rei decide aumentar o número de frades em Mafra, de oitenta para trezentos e não se discute. Além disto, determina que o convento terá de ficar pronto em dois anos e a sagração da basílica será feita no dia de seu aniversário. Para isto, ordena que enviem à construção quantos operários encontrarem, ainda que a força. Assim foi feito, a maioria dos homens foram tirados com violência de suas casas, até amarrados como escravos do Brasil. Um labrego ao contestar tal atitude “ó glória de mandar, ó vã cobiça, ó rei infame, ó pátria sem justiça”, foi morto. É possível traçar um paralelo entre o labrego e o velho do restelo, ambos idosos conscientes e com coragem de avisar a Portugal sua situação. Na época adequada os infantes casam, em matrimônios arranjados pelos interesses. Maria Bárbara será mandada à Espanha para casar-se com Fernando e da Espanha virá Mariana Vitória para casar-se com José. Esta união pode ser de utilidade para apaziguar conflitos entre os países. Baltasar foi novamente ver a máquina. Dentro da passarola, distraído não reparou onde punha os pés e de repente as tábuas cederam e para segurar-se puxou as velas descobrindo as bolas de âmbar e assim a maquina pôde subir. Baltasar não voltando para casa deixa Blimunda extremamente preocupada, que decide ir ao Monte Junto. Ao ver o local logo entende o que aconteceu, tomou o alforgue com o espigão deixado por Sete-Sois. Pensou que se a maquina subiu, ao entardecer estaria no chão, Blimunda pergunta a todos que passam se viram um homem com as características de Baltasar. A noite estava se aproximando e ela longe de Mafra, seria perigoso voltar tão tarde, pois há lobos, assaltos ou poderia perder-se no caminho. Um frade aconselhou-a dormir nas ruínas de um convento ali perto, Blimunda hesitou, com frio e medo acabou assim fazendo. O frade foi averiguar se a moça havia escutado-o e aproveitar para saciar a carne. Ao encostar em Blimunda foi-lhe enterrado o espigão nas costas. Agora, ela resolve sair e desafiar os perigos da noite, então correu como doida e enfim encontrou sua casa. Chegou o glorioso dia, o rei faz quarenta anos. Após treze anos de obras será consagrado o monumento, mesmo estando inacabado, o povo esperava do lado de fora da missa. Sete-Luas não se interessava pelas festividades, meteu tudo que pôde no alforge e saiu. Procurou Sete-Sois por nove anos, aonde chegava perguntava por um homem com as características de Baltasar, ao contar sobre a ave de ferro julgavam-na louca, por fim já era conhecida de terra em terra. Nunca entrava na igreja, pensava que esta não era sua casa. Milhares de léguas andou a moça, “Portugal inteiro esteve debaixo destes passos”. Blimunda na sétima vez que passa por Lisboa, em um auto-de-fé de queima adiantada, vê um homem a quem falta à mão esquerda e dentro dele sua nuvem fechada, “Então Blimunda disse, Vem. Desprendeu-se a vontade de Baltasar Sete-Sois, mas não subiu as estrelas, se à terra pertencia e a Blimunda”.

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